O Mapa da Mina: O que (não) vende no mercado editorial…?

Desde 2006 eu trabalho como leitora crítica, revisora e ministro oficinas de escrita criativa, ficção e roteiros, especialmente com autores de ficção, estudantes, e outros. Uma das coisas que mais me perguntam, logo que começo minhas oficinas é: “O que é que vende?”

No começo, eu achava essa pergunta um tanto engraçada. Mas com o tempo fui percebendo o lugar de onde ela surgia e se alimentava: o sonho de ser um escritor de sucesso e viver de nada mais que suas histórias. Um escritor best-seller. E essa idéia já motivou uma série de produções artísticas e metalinguísticas acerca do próprio assunto – como a série “Castle”, cujo personagem principal e que dá nome à série é o novelista Richard Castle. Tendo emplacado uma série de sucesso, com seu personagem, Derek Storm, ele é rico, bem sucedido, famoso, popular.

Mas o que faz um escritor de sucesso? Como posso ser o próximo Tolkien? O próximo Stephen King?

Em resposta a estas perguntas, há especulações de toda sorte entre quem escreve. Tendo conversado com vários autores, percebi que um certo tipo de “lenda urbana literária” tem se tornado cada vez mais iminente e presente no imaginário dos aspirantes a escritores: escrever o que vende – e pelo que “vende” vemos uma gama variadíssima de opiniões, quase sempre baseadas em ‘achismos’, e quase sempre relacionadas à fantasia medieval (que chegam a classificar obras como tolkien-based literature) ou ao terror sobrenatural baseado no mito do vampiro. Raras são as iniciativas que saem desses paradigmas, especialmente entre os mais novos.

Em algumas palestras e eventos dentre os que já atendi, ouvi ainda escritores de certo sucesso dizerem “O que vende é isto, o que vende é aquilo”. A partir disso, vemos obras e obras cheias de clichês e estruturas sempre muito semelhantes, entupindo as prateleiras das livrarias e mais ainda os cadastros das lojas on line – quando podem ser obtidos apenas por encomenda, como é o caso de muitas editoras por demanda (em que o autor paga para ser publicado). O que era pra ser uma nova visão sobre velhos cenários, transforma-se num Frankenstein literário: autores leem e releem o que já foi escrito, adaptam estruturas diversas, importam o que acham interessante ou bom e vão construindo um texto sem identidade, com discurso profuso e confuso, além de promoverem uma literatura sem intenção social, que visa apenas status para o autor e não promovem nada além de discussões superficiais, quer sobre o tema, quer em termos de crítica.

O principal argumento para a manutenção desta prática vem e se mantém dos próprios autores, mas de uma maneira muito superficial que, propositalmente, visa não enxergar os desdobramentos e consequências: escrever o que vende alimenta a esperança de grande sucesso comercial, indo “na onda” do que já existe no mercado. Por exemplo, vender obras que, de alguma maneira, falam de “vampiro” quando há setores inteiros dedicados a obras como a Saga Crepúsculo, Diários do Vampiro, André Vianco, Nazareth Fonseca e clássicos como Anne Rice, Bram Stocker, é tentar, de alguma maneira, conseguir um lugarzinho de destaque junto aos leitores mais ávidos do tema, que dia após dia, se multiplicam. Nessa ânsia, muitos autores escrevem obras rapidamente, procuram avidamente por editoras e até se propõe a pagar por suas publicações. Os motivos para tanto, são os mais diversos:

“Sei que posso contar uma história por uma perspectiva que ninguém pensou antes, que vai revolucionar o mercado editorial”
“Acho que os leitores vão gostar da maneira como eu abordo o tema”
“Eu posso mostrar que [insira aqui seu personagem favorito: elfos, magos, vampiros, etc] não são nada disso que já foi dito”

Também, e Infelizmente, a maioria dos autores acha que a inovação extremada é o caminho para a obra vendável. A inovação PODE ser um dos fatores, mas não é o determinante. Identidade da obra em si e identificação com o leitor são importantíssimos, mas também é necessário pensar em fatores tais como:

Intenção literária, narrativa, política, social, etc.
Construção de personagens, arquétipos (se necessário), cenário, tempo, enredo, etc.
Escolha do estilo, do léxico, da estrutura gramatical e discursiva, etc.
Uso da Pragmática, da Semântica, da Semiótica, etc.

Enfim, quando todos estes fatores são ignorados e o autor acredita que está escrevendo por que “vende”, além de um detrimento óbvio da qualidade, temos uma perda significativa da potencialidade comercial.

Então, é hora de pensar com calma: mais do que recorrer a temáticas já exploradas e que, geralmente, vêm importadas de outras culturas, procure conhecer a sua própria e ver quão complexa, cheia de nuances e abrangente ela é. Vampiros, castelos medievais e outros podem ser muito interessantes, mas a sua cultura local pode lhe dar muito mais do que você imagina.

Além disso, para escrever, norteie-se pela sua vontade e procure construir suas próprias estruturas, não importar “o que dá certo nas obras que vendem”. Sua identidade é muito mais valiosa e muita gente pode concordar com isso. Oficinas de criação literária e de produção comercial (como vender seu livro e afins) são muito interessantes e importantes. Mas é importante entender que a técnica é a base do texto – e técnica se apreende lendo muito, estudando mais ainda e aceitando críticas, que são essenciais para o seu crescimento, e se você não é capaz de lidar com elas, então você não quer produzir literatura, mas sim fanfiction.

Fique atento à sua produção e produza com responsabilidade.

 


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Janaina L. Azevedo

Janaina L. Azevedo é Línguísta, Mestranda em Mídia e Tecnologia na UNESP de Bauru, e trabalha como Profissional Independente e Criativa. Escritora, Tradutora, Feminista, Artista (e arteira) nas horas vagas e Mãe do Dante no resto do tempo.

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