“A culpa não é minha!” – Vaidade e fuga das críticas ao escrever

Tanto no meio acadêmico, quanto entre escritores que se aventuram na ficção, há uma série de críticas que, no final das contas, se resume à frase título desta postagem. De críticas aos editores e conselhos científicos, aos organizadores de obras, aos revisores, aos leitores críticos e pareceristas, entre outros profissionais que integram o processo editorial, essa vaidade faz com que, muitas vezes, os autores não consigam perceber os reais motivos pelos quais seus textos têm problemas – e portanto, vem, em geral, após a negativa da entrada em uma coletânea, numa revista, num periódico ou livro, com uma avaliação negativa de um texto ou, simplesmente, um fracasso (pequeno, médio, grande ou absoluto) editorial.

Mas, na incapacidade de tecer ou aceitar críticas ao próprio trabalho, o autor nunca é o culpado, pois, antes disso ele tem em mãos uma diversidade de desculpas que o eximem de qualquer responsabilidade. “O editor não soube trabalhar a minha obra” ou “A editora era pequena / média / grande e não me deu atenção” ou “O organizador escolheu só os amiguinhos dele / não sabe o que está fazendo” ou “O revisor deixou passar um monte de erros, por isso a obra ficou ruim” ou “O leitor crítico quis escrever minha obra no meu lugar” ou “O público não estava preparado para o tipo de obra que eu publiquei / é ignorante e só gosta de cultura de massa”. Melhor parar por aqui, não é? E não pense que só o autor publicado é que fala isso: a lista do que dizem os autores ainda não publicados e que estão na batalha pela publicação não é muito melhor (nem muito diferente).

Falemos sério: você, escritor / autor / pesquisador que já publicou um livro e não foi muito bem sucedido já falou em algum momento essas frases, não falou? E você, escritor ainda não publicado, já deve ter pensado ou mesmo dito para os amigos algumas dessas coisas.

Por incrível que pareça, uma breve análise destas frases mostra que os motivos pelos quais elas são ditas são bastante comuns no meio editorial e em geral estão relacionadas com uma equação que mistura a qualidade da obra com potencial editorial, preparação comercial (inclusive o marketing correto) e o reconhecimento do público por parte do autor.

Esse tipo de raciocínio – em geral depreciativo e conformista – pode ser substituído por uma postura mais positiva, produtiva e esforçada do escritor / autor que, com certeza, será acompanhada da plenitude do processo de criação, pesquisa, tessitura do texto e reconhecimento editorial. E vamos começar falando bem (mal) dos editores / conselhos editoriais de revistas e periódicos e suas editoras, estas figuras tão controversas: hora anjos, hora demônios, que nos perseguem incessantemente.

O editor / membro do conselho é aquele fulano sem coração que dirige a editora e – garanto – se você pudesse arrancar-lhe as tripas, fazia sem remorso. Ele é o cretino-fio-duma-égua-mal-parida que negou a sua obra. Ou, o amigo do peito, sujeito sangue bom, que a publicou – mas se não vender como você espera – e lógico, você se tornar o sucessor do Neil Gaiman ou do Stephen King – ele será logo, logo, o cretino-fio-duma-égua-mal-parida de novo.

O que muitos autores não entendem – e nem fazem muita questão, por que de cabeça quente e com uma rejeição na cabeça – é que não basta todos os seus amigos, familiares e contatos acharem que os capítulos que você disponibilizou estão ótimos, maravilhosos e estarem doidos para terminar a leitura da obra. Se, ao avaliar a qualidade e o potencial editorial, ela deixar a desejar nesses dois primeiros quesitos, sua obra vai ser rejeitada*.

E pronto! Surgiu a oportunidade de usar suas desculpas para não se responsabilizar. Será?

*Dependendo da respeitabilidade e da idoneidade da editora, pode ser que o autor receba uma sutil proposta de cooperação para a edição. Assim, “para minimizar os riscos da editora” você vai arcar com “uma parte dos custos de publicação”- que em geral são a parte que compete aos 100%, que parecem 40% na apresentação de um orçamento superfaturado. Por estes e outros motivos, não discutiremos aqui esta modalidade comercial.

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Janaina L. Azevedo

Janaina L. Azevedo é Línguísta, Mestranda em Mídia e Tecnologia na UNESP de Bauru, e trabalha como Profissional Independente e Criativa. Escritora, Tradutora, Feminista, Artista (e arteira) nas horas vagas e Mãe do Dante no resto do tempo.

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