“Orientador não é revisor”: o que é (ou não) dever de um orientador?

O contato, tanto com orientadores, quanto com orientandos das mais diversas áreas sempre dá a perceber que a relação que se estabelece entre ambos é tanto delicada quanto permeada de expectativas de ambas as partes, que, por vezes, não realizadas, podem comprometer seriamente o processo de pesquisa científica.  A realidade é que a relação entre orientando e orientador é quase familiar, como a de pais e filhos – às vezes boa e compreensiva, às vezes severa, às vezes livre, às vezes disfuncional. Justamente por tudo isso, é que, na prática, nem sempre elas funcionam. Não são raros os casos de orientandos e orientadores que acabam por se separar, orientações que acabam por ser desgastantes, e isso sem contar os casos mais graves em que os programas de pós-graduação têm de interferir, apontando outro orientador ao orientando ou mesmo realizando desligamentos.

Por isso, é bom ter as expectativas alinhadas – e saber exatamente qual o papel do Orientador / Advisor em sua pesquisa. Obviamente, cada orientador vai ter o seu próprio processo de trabalho, mas há linhas gerais que permeiam sua atuação, e saber o que esperar e o que Não esperar, pode ser uma boa maneira de trabalhar em qualquer nível de pós-graduação com serenidade. No geral, o MEC – Ministério da Educação dá autonomia às universidades no que se refere à atuação do professor em suas orientações, e as instituições também têm suas próprias instruções de conduta, que podem acarretar em diferenças entre as instituições.

O orientador tem que revisar minha produção?

O papel do orientador – como diz o próprio nome, é orientar a sua produção – aconselhar quais os melhores caminhos de pesquisa, te indicar leituras e bibliografia, acompanhar o seu progresso, te apresentar pessoas que possam colaborar com você e, por fim, analisar a coesão e a coerência científicas da sua pesquisa.

Isso não inclui ser seu revisor particular, estar disponível para suas dúvidas o tempo todo e / ou te devolver seu trabalho / dissertação / monografia ou tese “prontinho” e “corrigido”. Como diz o título desta matéria, Orientador não é revisor: ele não é revisor de texto, tradutor ou professor particular.

Ou seja, a responsabilidade de entregar uma obra legível, dentro da ABNT ou da Normas Técnicas que tenham sido escolhidas, numa boa formatação e com um texto correto, é do Orientando.

“Mas se ele já vai ler pra saber a quantas anda, o que é que custa corrigir?” – e é aí que o orientando tem que entender que custa sim, custa tempo que ele não passou com a família, na mesa do bar, com os amigos ou adiantando as próprias pesquisas. Custa que acionar ferramentas de revisão, comentários e justificativas tomam tempo. Custa que acertar a ABNT, ou as Normas Técnicas quaisquer que sejam, é um processo longo e demorado. Tanto que há profissionais muito bem pagos e especializados nisto – os revisores.

Então não adianta ficar bravo depois da qualificação / banca de ter tomado bronca por que “Meu orientador deixou passar um monte de erro”. Caríssimo(a), seu orientador não “deixou passar nada”. Ele não tem obrigação de fazer isso. Contrate um profissional se não quiser ter dor de cabeça, e cobre do seu orientador o que é papel dele: te orientar.

Tenho que produzir artigos e papers com meu orientador?

Considerando que ele é a pessoa que mais conhece a sua pesquisa, que te orienta nela, que te instrui, te indica o caminho a percorrer, as leituras a fazer e toma parte dela – bom, ele é a pessoa mais indicada para você escrever com.

E isso deveria ser uma decisão tão lógica quanto o raciocínio expresso no parágrafo acima: mas, obviamente, tratando-se de seres humanos, nada é tão simples. Há muitos orientandos que reclamam, por exemplo, que o orientador os deixa sozinhos para escrever seus artigos e papers, mas que são obrigados a colocar o nome do orientador lá por uma questão de “formalidade”. Será que é só formalidade? O seu orientador não estava lá, te indicando leituras? Te atendendo uma vez por semana na sala dele? Lendo o que você escreve? Se sim, então ele participou da confecção desse artigo sim.

Temos um hábito bem ruim, norteado por uma ética que advém do mercado de trabalho, que é a de mensurar trabalho que produz algum bem físico ou ao menos perceptível – escrever um paper, por exemplo, gera um texto. O desprezo pelo trabalho intelectual que o processo envolve faz com que, muitas vezes, desprezemos a conversas, o bem imaterial da orientação, a instrução científica e tudo aquilo que não inclui tão somente sentar numa cadeira e escrever um texto. E esse valor imaterial é preciosíssimo: foram anos e anos de estudo, pesquisas, leituras, noites mal ou não dormidas, para chegar e te fazer aquela indicação de livro.

Portanto, sim, naquele período em que você está com seu orientador, o seu trabalho se junta ao dele. E é de bom tom e ético que você reconheça isso em sua produção.

Outras Dúvidas:

Orientador e orientando têm de se encontrar uma vez por semana?

Orientador e aluno devem estar em contato, mas não há uma periodicidade determinada. Muitos programas de pós-graduação apontam que o mais comum são reuniões semanais, que podem ocorrer em forma de grupos de estudos, mas também devem dedicar algum tempo individual ao aluno. Mesmo que a periodicidade seja maior, o que não pode acontecer é o aluno querer falar com o professor e nunca conseguir.

Caso o aluno se veja na posição de não conseguir contato com seu orientador, a primeira saída é sempre o diálogo – tentar achar uma forma de contato que seja boa para ambos. Mas sempre há os casos em que o diálogo não é suficiente – somente após esgotar todas as alternativas junto ao orientador é que o orientando deve procurar o Conselho ou Coordenação do Programa, outros docentes, seus representantes discentes e afins para outras providências.

O orientador pode se negar a disponibilizar celular, facebook, etc?

Há orientadores que preferem um contato mais formal, limitando-se aos encontros presenciais e às correspondências escritas – como e-mails e relatórios. Em outros casos, querem um relacionamento regular, seja por redes sociais ou telefone. Fica a critério do orientador. O estudante não pode exigir ou delimitar a forma de contato – apenas sugerir – por que, na verdade, como a orientação faz parte da vida profissional do orientador, contatos mais próximos podem, inclusive, interferir na vida pessoal dele.

O orientando pode querer a troca do orientador?

Seja qual for o problema, esta é uma decisão que deve ser muito pensada, pois todo rompimento gera desconforto e processos complicados. A maior parte dos programas de pós-graduação não aconselha a troca de orientadores, mas ela é possível, desde que considerados válidos os motivos – que podem ir de mudança da linha de pesquisa a problema de afinidade. Uma vez tomada e acertada a decisão – tanto entre o orientando e o orientador atual, quanto entre o orientando e o futuro orientador, num processo que deve ser o mais transparente possível, é necessário solicitar a alteração à coordenação do programa, com justificativa.

O processo não pode ser banalizado, não pode ser permeado por fofocas e a justificativa para a troca tem de ser válida. Não calque seu pedido em justificativas que você não pode comprovar (como fofocas ou afirmações de terceiros) e, caso haja uma situação realmente ruim, procure a orientação dos Coordenadores do programa sobre como proceder – a maioria dos programas possui representantes discentes, esses também podem ser uma boa opção, uma vez que representam seus interesses.

O orientador pode não querer mais orientar o aluno?

Se o aluno pode não querer mais o orientador, é certo que o contrário também pode acontecer. E geralmente isso se dá por conta da falta de comprometimento, presença e trabalho do estudante. Falta de afinidade com a pesquisa, não entrega de trabalhos, entre outros. Em alguns casos o aluno pode ser encaminhado a outro orientador, em outros, desligado do programa. Mas há que haver bom senso, e sempre o aluno tem o direito de ser ouvido, de dialogar com o orientador, entre outras coisas. Quando o professor quer efetuar esse rompimento, da mesma forma que acontece com o estudante, é necessário ter justificativa e aprovação da coordenação ou do conselho do programa de pós-graduação.

O Orientador pode ser culpado pelo plágio do aluno?

Como o orientador é considerado como um “conselheiro” no processo de confecção da pesquisa, não há por que tomá-lo como um coautor do trabalho e, à primeira vista, o professor não pode ser responsabilizado por plágio que seu orientando tenha cometido, até por que, embora o orientador possa ser o possuidor de um grande referencial teórico, dificilmente ele saberia de cor tudo que já leu para poder identificar um plágio. É certo que hoje existem softwares para tanto, entretanto, por serem bastante caros e dispendiosas sua manutenção e atualização – então, são raros os orientadores que têm acesso a este recurso.

Contudo, se o Orientador notar o plágio e não advertir o aluno a retirá-lo, ou ainda, se o aluno recursar-se a fazê-lo e prosseguir com a conduta, o orientador dele comunicar o programa e a universidade. Especialistas em direito autoral advertem que a conivência com a prática caracteriza cumplicidade – ou seja, se o orientador se omitir, ele pode ser acionado judicialmente junto com o aluno, que for confirmado que ele sabia do fato e se omitiu de comunicar as autoridades competentes.


Fontes: MEC – Ministério da Educação; CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior; Revista Linhas Críticas, Brasília, v. 14, n. 26, p. 93-109, jan./jun. 2008.

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Janaina L. Azevedo

Janaina L. Azevedo é Línguísta, Mestranda em Mídia e Tecnologia na UNESP de Bauru, e trabalha como Profissional Independente e Criativa. Escritora, Tradutora, Feminista, Artista (e arteira) nas horas vagas e Mãe do Dante no resto do tempo.

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