Memorial & Trajetória Acadêmica: como falar de si mesmo sem ser pedante?

Muitos concursos e processos seletivos acadêmico-científicos exigem que, além do currículos Lattes e das comprovações devidas, seja entregue um Memorial ou um Prospecto / Descritivo Breve da Trajetória Acadêmico-Profissional – e esse nome bonito se torna o maior pesadelo de muita gente nesse momento, que pouco sabem do que se trata esse documento ou como redigi-lo.

Em primeiro lugar, é necessário entender que trata-se de um documento autobiográfico (e por isso escrito em primeira pessoa) no qual a pessoa vai descrever, analisar, quantificar e qualificar os acontecimentos sobre a sua própria trajetória acadêmica, profissional e intelectual.

Algumas partes são muito importantes e vocês deve falar claramente sobre elas: a sua formação, a suas experiências profissionais e as relações de tudo isso com sua vida pessoal, e como suas escolhas impactaram todos os âmbitos da sua vida. Além disso, é importante fazer constar do memorial o por que de você estar tomando parte naquele processo seletivo ou formação específica e suas expectativas nesse sentido.

Partes Integrantes do Memorial

No geral, um Memorial deve ser escrito em “texto corrido”, ou seja, um texto redigido na forma narrativa e na primeira pessoa do singular – esse relato tem o propósito de possibilitar a observação dos fatos marcantes, conquistas, méritos, enfim, de toda a trajetória da pessoa e de seus objetivos. Em seguida, o candidato deve expor de maneira objetiva os seguintes itens:

  • Qual sua formação, aperfeiçoamento e atualização profissional?
  • Quais suas atividades técnico-científicas, artístico-culturais e de prestação de serviços especializados à sociedade?
  • Quais suas atividades docentes?
  • Já desempenhou alguma função de administração? Qual?
  • Recebeu títulos, homenagens e aprovação em concursos?
  • Tem produção científica, literária e artística?
  • Quais são os motivos, as razões e as perspectivas para estar ali?

E como você deve apresentar tudo isso? Coloque o título, os dados formais daquela atividade / formação / produção, e finalize escrevendo uma ou duas linhas sobre o impacto daquela atividade na sua trajetória.

Outro ponto importante é que você pode dividir as atividades que está apresentando em diversos capítulos, e ao início de cada capítulo, colocar uma narrativa e uma descrição breve sobre o que acha de significante naquela produção. Lembre-se, ainda, que existe uma parte pré-textual formal: você deve iniciar o memorial com Capa e folha de rosto, contendo nome, título (Memorial) local e ano e, ao criar o sumário, deve seguir as normas da ABNT NBR 6027. Para numerar as seções, dê uma olhada também nas Normas da ABNT NBR 6024 e para Citações, ABNT NBR 10520.

Dicas & Notinhas sobre Memoriais

Uma coisa é fato: o memorial se tornou um gênero textual utilizado basicamente na Academia. Há quem goste deles, afinal, eles dão um pouco de “emoção” aos enfadonhos processos de qualificação, seleção, entre outros – é bem melhor ler uma boa história, do que ficar “assinalando itemzinho num currículo extenso e impessoal. Há quem considere que são cafonas, bregas, pedantes, desnecessários, encheção de linguiça – mas no fim das contas, uma tortura para quem escreve, afinal, quem é que quer falar de si mesmo e correr o risco de se achar um lixo, ou ainda, parecer pedante, arrogante e metido? Mas há algumas dicas essenciais para fazer um bom memorial.

Comece onde tudo começou: dentro de casa, na sua família

Família, ou a falta dela (real ou figurativa), em muitos casos, são a base da formação do indivíduo. Portanto, a trajetória da pessoa que você é hoje começou lá atrás, quando você começou a se entender por gente. E este é um terreno muito delicado: esta não é a hora nem o lugar para lavar roupa suja – em maior ou menor grau todo mundo tem problemas com a família (afinal, família a gente não escolhe, a gente aguenta), mas a banca não quer saber dos anos de terapia que você teve de fazer por que seu pai parecia o tiozão que ficava de pijama o dia inteiro assistindo Faustão no domingo, ou se sua mãe te fez pegar raiva de igreja de tanto que te arrastou pra lá. Por mais que isso possa ter te influenciado, não é pertinente, então cite os resultados BONS que surgiram a partir disso, e lave a roupa suja em casa.

Tamanho que é documento

Tem memorial de 100 páginas. E tem memorial de 2 páginas. Qual é o certo? Você é quem sabe. Você acha que consegue convencer a banca de tudo que fez em 2 páginas? Corre pro abraço da felicidade nessas duas páginas, amigo! Você acha que a banca não vai dormir em 90 páginas de narração dramática (e põe drama nisso) sobre a sua vida? Legal, por via das dúvidas, manda umas cápsulas de Cafeína junto, campeão.

De qualquer forma, uma boa dica é você pedir para pessoas leigas lerem o seu memorial, e pessoas do seu meio acadêmico lerem seu memorial e darem uma opinião objetiva: “Tava longo? Curto? Chato? Interessante? O que você tiraria? O que você colocaria?”

Mais uma coisa: toda história fica mais legal quando tem uma linha narrativa, uma historinha que conecta tudo: um sonho que permeia todas as suas ações, ou um objetivo que te faz seguir em frente. Então, se a sua narrativa for meio grande, certifique-se de que essa “historinha” funciona. Há livros gigantes que são interessantíssimos de ler e prendem o leitor e há livros curtíssimos que o leitor não passa da primeira página. faça a leitura valer a pena.

Fale a sua língua

“Deste momento em diante, colocar-me-ia a disposição de…”

Cara, você não fala desse jeito. A ideia do memorial não é a pompa, não é parecer o Jânio Quadros falando. Coloque no texto as suas expressões dialetais ou os seus empregos de expressões regionais, por que essas coisas te representam e te dão identidade. Isso te aproxima de quem está lendo por que, afinal de contas, é outra pessoa, não um robô programado com toda a norma culta da língua Portuguesa, quem no final, vai te entrevistar. Não cometa erros de português, nem se valha de coloquialismo exacerbado, mas não deixe de falar como você mesmo.

As contradições da Academia nos Memoriais

Uma das coisas mais contraditórias a respeito da confecção dos memoriais é que, nele, as pessoas fantasiam que é uma beleza. Tem horas que querem que tudo seja testado em laboratório em CNTP, em outras, pode inventar que eu acredito!

Além disso, parece que todo cientista é também um Monge Tibetano Budista – ele não tem dúvidas sobre seu caminho, a paz e a serenidade são seus alicerces e tudo que ele faz é grandioso. A academia gosta de cientistas natos – ou seja, se você passou anos vivendo na Índia pra tentar se encontrar, você precisa dizer que passou anos compreendendo sua vocação para a ciência e os métodos ancestrais da pesquisa hindu.

Isso sem contar que você tem de convencer as pessoas de que você é o máximo, mas sem deixar de ser humilde (oi?).

E, por fim, fica a pergunta que não quer calar: como é possível ser arguido sobre um memorial? Só aqueles que já estiveram lá, sabem. E eles não contam.

Autocrítica e Autoavaliação

No final das contas, não se esqueça de que o Memorial também tem a função de promover e praticar a autoavaliação, num exercício bastante íntimo de autocrítica: como está o seu desempenho? Como você está aproveitando as atividades de aprendizagem e de avaliação? Quais as suas maiores dificuldades? O que você está fazendo para superar suas dificuldades? Pense em tudo isso, pois enquanto você o faz, você está se renovando, se conhecendo e se construindo.


Fonte:  TVEscola

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Janaina L. Azevedo

Janaina L. Azevedo é Línguísta, Mestranda em Mídia e Tecnologia na UNESP de Bauru, e trabalha como Profissional Independente e Criativa. Escritora, Tradutora, Feminista, Artista (e arteira) nas horas vagas e Mãe do Dante no resto do tempo.

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